PROPOSTA “EM LINHA RETA”
Proponho mudanças, para melhor nos adequarmos à triste realidade instalada, à nova ordem.
A dignidade da pessoa humana será abolida do ordenamento jurídico e, em conseqüência, todos serão culpados até que se prove o contrário.
A partir daí, outras mudanças virão.
Durante um ano, todos, inclusive os aplicadores do Direito, permanecerão interceptados pela onipresente Polícia, independente de homologação judicial.
Depois disso, os soberanos intérpretes-policiais dos áudios gravados e captados concederiam salvo-conduto àqueles que, de acordo com a sinopse oficial, não esboçassem um risco à nova ordem.
A regra do incidente de inutilização das gravações, que não interessarem à prova, cairá no anedotário popular.
A imprensa será imune ao crime de quebrar segredo de justiça. E mais: serão condecorados os jornalistas que divulgarem a intimidade alheia, em solenidade pública, de preferência, em palanques armados nas principais praças das capitais do país.
O equipamento que armazena as conversas telefônicas monitoradas será erigido à santidade, pois já “parece um Deus em sua ubiqüidade divina: está em todo o lugar, ouve a todos, mas ninguém o vê”.
Presumidamente, todos os cidadãos, que se candidatarem a cargo eletivo, terão a ficha suja, seja lá o que isto for.
À Polícia será facultado, conforme o editorial dos periódicos, fixar o conceito de flagrante delito. Também, a Polícia e a imprensa “processante” estabelecerão, quando oportuna, a pena de banimento ou degredo.
Os escritos de Nelson Hungria serão queimados, na fogueira, sob os aplausos da sociedade civil, ávida por justiçar, eis que pecaminosos, e quem os citar passará ao status de inimigo do novel Rei.
“Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?”.
Melhor será sairmos da mentira, ou melhor, ainda: sairmos da hipocrisia.
Conta-se que Tim Maia odiava a hipocrisia, porque é a mentira da mentira.
Afastem-nos, então, do cálice da hipocrisia.
“Cada qual com o seu porrete, arrebentando a espinha e a cabeça de quem nos contrariar. Cada qual com o seu porrete!”. Eis a nova ordem.
Salve a tal ordem.
OBS: O pior, a bem da verdade, é que todos temos a nossa parcela de responsabilidade, pois: “na primeira noite eles se aproximam, roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E como não dissemos nada, já não podemos dizer mais nada”.